Recordações d’uma colonial: autobiografia credível ou sátira racista?

Diana Gomes Simões

Resumo


As memórias ficcionais da cabo-verdiana Fernanda do Vale, figura bem conhecida da boémia lisboeta
do início do século XX, chegaram a público pela pena de dois autores obscuros, A. Totta e F.
Machado. Será esta uma autobiografia autêntica ou um mero ato de ventriloquismo? Defendo que o
retrato caricatural de Fernanda é, na verdade, um relato ficcional pouco credível, e um exemplo do
que Alexandra Ishfahani-Hammond chama de white negritude. Através de uma análise detalhada das
inconsistências do texto autobiográfico de Fernanda, e tendo por base algumas teorias de simulação
linguística (mock ebonics) enquanto instrumento de sátira e racismo, este artigo mostra como a linguagem
é um poderoso mecanismo de demarcação social e racial: o discurso e ideologia colonialistas
são projetados na voz de Fernanda, cujo corpo representa o território africano a ser dominado e cuja
identidade é transitória e flutuante.


Palavras-chave


Autobiografia. Racismo. Colonialismo. Linguagem. Negritude.

Texto completo:

PDF

Referências


ALKMIM, Tania. Falas e Cores: Um Estudo sobre o Português de Negros e Escravos no Brasil do

Século XIX. LIMA, Ivana Stolze; CARMO, Laura do. (Org.). História Social da Língua Nacional.

S.l.: Edições Casa de Rui Barbosa, 2008. p. 247-64.

BELEZA, Fernando. Das Margens do Império: Raça, Género e Sexualidade em Recordações d’uma

Colonial (Memórias da Preta Fernanda). ellipsis, v. 12, 2014, p. 215-241.

Bhabha, Homi K. Of Mimicry and Man: The Ambivalence of Colonial Discourse. The Location of

Culture, Routledge, 1994, p. 85-92.

FREYRE, Gilberto. Aventura e Rotina. S.l.: Livraria José Olympio Editora, 1953.

_______. O Mundo que o Português Criou: Aspectos das Relações Sociais e de Cultura do Brasil

com Portugal e as Colónias Portuguesas. [S.l.]: Edição Livros do Brasil, 1940.

ISFAHANI-HAMMOND, Alexandra. White Negritude: Race, Writing, and Brazilian Cultural Identity.

S.l.: Palgrave MacMillan, 2008.

LEJEUNE, Philippe. A Autobiografia dos que Não Escrevem: O Pacto Autobiográfico: De Rousseau

à Internet. Trad. Jovita Maria Gerheim Noronha e Maria Inês Coimbra Guedes. Belo Horizonte:

Editora UFMG, 2008.

MATOS, Patrícia Ferraz. As Côres do Império: Representações Raciais no Império Colonial Português.

Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2006.

MCWHORTER, John. Talking Back, Talking Black: Truths about America’s Lingua Franca. S.l.:

Bellevue Literary Press, 2017.

RONKIN, Maggie e Helen E. Karn. Mock Ebonics: Linguistic Racism in Parodies of Ebonics on the

Internet. Journal of Sociolinguistics, v. 3, n. 3, 1999, p. 360-380.

TOTTA, A. e F. Machado. Recordações d’uma Colonial (Memórias da Preta Fernanda). S.l.:

Oficina da Ilustração Portuguesa, 1912.

VALE, Fernanda do. A Preta Fernanda (Memórias): Recordações d’uma Colonial. S.l.: Teorema,

VIGOUROUX, Cécile B. The Discursive Pathway of Two Centuries of Raciolinguistic Stereotyping:

Africans as Incapable of Speaking French. Language in Society, v. 46, 2017, p. 5-21.


Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2018 Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

INDEXADORES, DIRETÓRIOS:

Thumbnail

VISITANTES NO MUNDO DA REVISTA INTERDISCIPLINAR EM CULTURA E SOCIEDADE: